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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Quando o que vemos é tudo o que existe

deixamos de ter perspectiva. Quando ficamos demasiado tempo no mesmo sítio ou fazemos durante muito tempo as coisas da mesma maneira, começamos a acreditar que aquilo que vemos - que não é muito, é o mundo inteiro. E quando pensamos que o mundo não vai além dos confins da nossa própria bolha, perdemos a capacidade de relativizar. Assumimos que os nossos problemas são os piores que existem, verdadeiras tragédias que nos impedem de tomar atenção às situações dos outros e às soluções que nos oferecem.
Por isso é fundamental sair. Ver, experimentar, sentir. Rebentar a bolha que nos limita e criar outra, uma que abarca mais mundo e que nos deixa ver mais longe, ao mesmo tempo sólida e transparente.  Por isso viajar é tão bom, para tocar outras perspectivas e saborear outras visões da vida. Não é preciso ir ao outro lado do mundo, nem sequer apanhar um avião. Às vezes basta calcorrear o caminho de sempre com a mente aberta aos pormenores, chegar ao sítio do costume por um percurso diverso, olhar aquela pessoa que nos acompanha todos os dias com a curiosidade de uma criança. E as tragédias que nos atormentam acabam por encolher para a sua devida dimensão.
 
"Aquilo que vemos todos os dias transforma-se aos poucos em tudo o que conseguimos imaginar e, já se sabe, aquilo que conseguimos imaginar é tudo o que existe. Se aquilo que nos rodeia é tudo o que existe, os nossos problemas passam a ser os maiores que existem, não importa a real proporção da sua importância. O nosso mundo passa a ser o mundo inteiro (...) Por isso faz tanta falta ir."
 
José Luís Peixoto, VM Fevereiro 2013
 
 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

“Teach at the beach”

Chegou como turista. Depois foi ficando como expatriado. Apaixonou-se por aquela praia ganesa na costa do Atlântico e lá se instalou. Montou uma escola de surf, onde recebia miúdos pobres na sala de aula feita de areia e de maresia. Uma noite, resolveu pagar um jantar aos seus alunos e levou-os a um restaurante. Sentados à mesa, com os seus sorrisos rasgados, o empregado perguntou-lhes o que queriam comer. Cabisbaixos, com ar de vergonha e dúvida, nenhum miúdo abriu a boca. O expatriado insistiu: “Podem escolher o que quiserem”. No olhar deles havia agora espanto e curiosidade. O mais corajoso pediu então um prato. Todos os outros – ao todo 12 – pediram a mesma coisa. Naquele momento o expatriado percebeu o que se passava: eles nunca tinham ouvido a pergunta: “o que queres comer?” ou lhes tinha sido pedido que dissessem uma coisa tão simples como “o prato que mais gostas”.

Não é só comida e roupa que falta a estas crianças; estes miúdos não têm escolha, alternativa, possibilidades. Não se recusa nenhum tipo de comida quando esta é escassa e engolem tudo o que lhes dão sem questionar. Dar opinião? O que é isso? Podemos ser nós a escolher o que queremos? Podemos ser outra coisa que não o que nos calha ao acaso? Podemos deixar de ser vendedores na estrada e fazer algo menos arriscado, menos cansativo e que nos encha o coração? Sonho? Isso existe?

"Obroni!"
Esta história verídica contada pela minha colega inglesa preenchia-me a mente e seguia-me juntamente com as crianças da comunidade onde fizemos o trabalho de campo. Quando a “Obroni” (mulher branca) passava, as crianças até então entretidas nos seus jogos ou afazeres domésticos paravam a sua actividade, acenavam energicamente e ofereciam um sorriso de orelha-a-orelha. Eu respondia com um “Hello” comovido. Elas continuavam a sorrir e começavam a seguir-me, enquanto eu dizia “How are you?”. Percebi que a máquina fotográfica que trazia a tiracolo era alvo de olhares e perguntei-lhes se queriam uma foto. Imediatamente se puseram em pose e em segundos dezenas de crianças se meteram à minha frente de sorriso aberto à espera do clique mágico. Tirei dezenas de fotos a estas crianças, que reagiam entusiasticamente quando lhes mostrava o resultado colorido e procuravam o seu reflexo no ecrã minúsculo da minha Canon. Apetecia-me saber mais sobre estas criaturas doces e perguntava-lhes o nome; muitas delas eram muito pequenas e as outras mal falavam inglês, mas as que conseguiam perceber “What is your name’” traduziam para as restantes e debitavam os nomes meio ingleses - meio nativos com uma pronúncia fechada e suave. Quando lhes disse o meu nome repetiram em coro “Sandrrrrrraaaaaa”, como se tivessem acabado de aprender uma palavra nova para o seu vocabulário.






 
No dia seguinte, quando chegámos à comunidade, algumas das crianças lembravam-se de nós e vieram ter connosco, calcando o pó do chão cru e do harmattan que assola a região nesta altura (correntes de vento originárias do deserto do Sara transportando partículas de areia e de pó que tornam a atmosfera opaca e diminuem a temperatura do ar). Em troca de abundantes sorrisos, distribuí o chocolate que trazia por elas, numa azáfama divertida em frente a uma barraca de madeira onde se entrançavam cabelos como arte. Aqui, nesta comunidade pobre onde as condições de vida e os acessos são difíceis, moram criaturas cheias de vida e de alegria, apesar das circunstâncias e da falta de escolhas.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Castelos de nuvens

Sábado, 5 de Janeiro de 2013
 
Lisboa. O avião descola em direcção a Este. Sobrevoamos o Parque das Nações, vigiado de perto pela Torre Vasco da Gama, numa elegância altiva. Segundos depois, a asa direita desce e viramos para Sul, na direcção do azul brilhante do Tejo. Subimos aos 3 mil metros, com Lisboa na retaguarda, protegida por uma cúpula de nuvens. A cidade fica envolta numa misteriosa neblina branca, com tufos de algodão-doce aninhados a 2 mil metros de altitude. No mínimo bizarro, num dia tão luminoso como este. Do manto branco de Lisboa surgem os meandros da Ponte Vasco da Gama, serpentando sobre o rio. Em frente, por baixo do avião que ganha altitude, ergue-se um castelo de nuvens altas e fofas, como um muro intransponível. Desta vez não precisamos de atravessar, sobrevoamos.
Durante a viagem, enquanto rumamos para sul atravessando o Trópico de Câncer, temos acesso a um pôr-do-sol diferente, com o astro redondo invisível no meio das faixas de cores quentes estendidas no horizonte. Apetece deixar-se ir naquele calor, estender-se nas nuvens e pairar sobre a terra. O capitão informa que em Acra estão 28º e o coração continua a aquecer. Esta sensação de deixar o frio do Inverno e chegar ao calor dos trópicos em apenas 6 horas de viagem, quando a geografia se sente na pele, é fabulosa!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Diálogo intercultural

De passeio pela mata de São Domingos de Benfica, depois de alguns passantes nos cumprimentarem:
- Na Finlândia as pessoas desconhecidas em passeio não dizem "Bom dia" umas às outras.

No final de um almoço prolongado e tardio à beira da praia:
 - Na Finlândia a hora do almoço é muito mais curta e não se almoça assim às 4h da tarde.

Depois de 3 dias a dormir numa casa lisboeta sem aquecimento central:
- Agora percebo porque se queixam do frio em Portugal.

Numa passagem diurna pelo Bairro Alto, em frente a uma janela com roupa no estendal:
- Na Finlândia ninguém poria a sua roupa interior a secar na rua, à mostra de todos.


Nada melhor que uma estrangeira simpática e frontal para nos apontar os defeitos e as virtudes!
 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Tarde boa

esta. Começou com um almoço vegetariano delicioso num restaurante acolhedor ao lado da Gulbenkian. Num encontro de amigas adiado pelas turbulências das nossas vidas. Mas hoje sim, hoje conseguimos estar juntas. E foi tão bom! A conversa fluiu naturalmente, sem pressa e sem filtros. A amizade torna-nos transparentes. Falámos de problemas, pequenos e grandes, da ansiedade pelo futuro, de amarras familiares, de dúvidas de amor, de dificuldades profissionais. Partilhámos sonhos e vontades, o desejo de ser mais, a alegria - e o desafio - de ser mulher e jovem na cidade que nos juntou. 
O tempo, esse, passou de mansinho sem darmos conta. O sol já se punha quando nos separámos, a lembrar-nos que esta tarde acabara mas que haverá outras, muitas mais.

Obrigada, amigas, por esta tarde.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

You got mail, from aussie land!

Hoje recebi uma coisa especial. Uma carta, da Austrália. E é especial porque hoje em dia receber cartas é algo raro e porque há vários anos que não recebia correspondência postal daquele lado do mundo. Esta carta é especial ainda por outra razão: porque me trouxe fotos do novo elemento da família, daquela família de coração que lá conheci e lá deixei, já lá vão mais de 7 anos. Chama-se Keya e é uma princesinha indiana nascida em território australiano no passado mês de Maio.


Esta carta trouxe-me também outras coisas: recordações, daquelas boas, a sensação de pertença que aquece o coração, e algumas saudades. Sem nostalgia, apenas a consciência que o tempo passa, a pessoa cresce e a vida evolui. Lembro-me perfeitamente do dia em conheci a mãe de Keya, a Noella. Era sábado, eu tinha pisado solo australiano pela primeira vez uma semana antes e naquele dia tinha decidido participar na visita ao Zoo de Nowra, a sul de Wollongong, organizado pelo comité de boas-vindas aos estudantes internacionais. Durante a viagem de autocarro, entreti-me a conversar com o rapaz colombiano que se sentou ao meu lado, com os discursos introdutórios da praxe: “de onde vens”, “o que vens estudar”, “o que fazias antes”. – Era professora, disse eu. E uma voz melodiosa apareceu vinda do lugar atrás de nós, dizendo “That’s awesome, I want to be a teacher!” Era a Noella, que silenciosamente participava na nossa conversa e não conseguiu conter o entusiasmo quando descobriu que eu era professora. Na altura não lhe falei no meu desencanto com o ensino que me levou a partir para aquele lado do mundo… é engraçado como a condição que inicialmente nos uniu – ser professor – deixou praticamente de existir, sem destruir a relação que construímos desde então.

Foi amizade à primeira vista! Sim, porque também há amizades assim, que nascem de uma gota de água e se transformam em oceanos. A partir desse dia a Noella estava lá para mim e eu estava lá para ela. Ela foi minha amiga, minha irmã, a minha família enquanto eu lá estive. Partilhámos as alegrias e as dificuldades, trabalhámos na ONG juntas, arrendámos uma casa para nós junto à praia. Eu lamentei as minhas más escolhas de amor, ela revelou as dúvidas dela. Quando eu não tinha dinheiro para as compras, ela trazia-me o jantar do restaurante indiano onde trabalhava. Refilámos juntas com uma máquina automática de chocolates que engoliu a minha última moeda de 2 dólares (para aquela semana só tinha 5 dólares para gastar) e não nos deu o twix pelo qual salivávamos. Ficámos ambas viciadas no cappuccino do café Picasso. Ela aprendeu comigo a gostar do mar e a usar um biquíni (na Índia as pessoas vão ao mar vestidas), eu aprendi com ela a usar o lápis dos olhos (maquilhagem era coisa que até então não me interessava). Mentimos juntas aos pais dela para ela poder ir à Europa com o então namorado italiano. Vimos o nascer-do-sol sobre o mar no dia em que me vim embora, de regresso a Portugal, com a promessa mútua de nos voltarmos a ver passados 2 anos, na Índia.

E assim foi. Dois anos depois, no final de 2006, peguei na minha mochila e parti à descoberta da Índia. Fui recebida de braços abertos pela sua família, tão semelhante à minha em muitas coisas. O ser humano é sempre ser humano, em qualquer lugar do planeta. Depois de alguns dias sentia-me em casa. Em 2009, reencontrámo-nos. De novo na Índia, para o seu casamento. Desta vez ela parecia mais crescida, mais ocupada, mais séria, mais... distante. Quando nos encontrámos no aeroporto senti que o cordão que nos unia tinha ficado de repente mais fino… ou melhor, os anos de distância foram desgastando o nosso fio de ligação, porque apesar de tudo e de todas as coisas electrónicas que existem, há coisas do dia-a-dia que não partilhamos quando temos meio mundo entre nós. Mas apesar desta sensação de mudança não desejada, foi bom estar com ela. Voltámos a partilhar segredos, angústias, sonhos. Tomei consciência que a amizade também se ajusta e não deixa de ser bonita por isso, porque os oceanos também são esporadicamente percorridos por ondas. E voltámos a separar-nos. Até ao dia em que eu me decidir regressar à Austrália para conhecer pessoalmente a Keya.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Providências da vida quotidiana

Sabem o que acontece quando duas moças distraídas e carregadas de sacos de compras entram no parque de estacionamento do Colombo pelo lado errado?
- Apanham boleia de um senhor num carrinho branco que parece ter vindo de um campo de golf, são transportadas confortavelmente sentadas até à porta do seu carro e saudadas com um gentil "Tenham um bom dia!"

Sabem o que acontece quando, apesar da procura constante de emprego mas influenciada pelas más notícias económicas impregnadas no ar, uma pessoa não espera receber por algum tempo respostas positivas para um emprego?
- Recebe dois convites para uma entrevista na mesma semana.

Há dias em que a vida toma as devidas providências para nos ajudar...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Professores, para que vos quero

A polémica em redor dos professores parece não ter fim. Às vezes o ritmo das críticas e das mudanças abranda, para depois voltar a acelerar em busca de um ensino de excelência que nunca é alcançado. E depois vêm mais mudanças, críticas, comentários, apreciações negativas. E a polémica cresce, mais uma vez.
No fundo, julgo que todos concordam com a necessidade de alterações estruturais e exigentes que aumentem a eficácia do ensino, dotando as crianças e jovens de capacidades e conhecimentos que lhes permitam encarar um futuro profissional e pessoal de sucesso. Esta é a missão de um sistema educativo, uma missão nobre e crucial para o desenvolvimento de qualquer país, a todos os níveis. A educação é a solução para muitos problemas.
O caminho para cumprir esta missão toma, no entanto, direcções diversas. Há quem defenda cortes e racionalização de recursos num grupo profissional supostamente com abundância de regalias e excesso de mão-de-obra. Das opiniões que ouço e leio, são muitos os que defendem esta opção. Suponho que a grande maioria destes não tenha no seu círculo social mais próximo um professor, porque os que têm pensam normalmente diferente. E pensam assim porque sabem da instabilidade profissional, das (cada vez maiores) exigências da profissão, incluindo ao nível psicológico e emocional, e do verdadeiro valor que é dado ao seu trabalho através de salários que, ao contrário do que se pensa, não são chorudos.

Mas vamos a factos. Começando pelo dinheiro, uma medida que toda a gente percebe, um professor contratado com horário completo tem um salário bruto entre 809.33 (índice 89) e 1373.13 Euros (índice 151), dependendo se tem uma licenciatura e se é profissionalizado (com estágio). Ser professor contratado significa que este profissional tem emprego apenas por um ano - ou menos - e que, todos os anos, tem que concorrer sem saber à partida se terá trabalho nos concelhos que preferiria, mais perto da sua residência (a principal motivação). Ou sequer se terá trabalho. Durante anos, pelo menos 10 anos nos dias de hoje (depende também das disciplinas que lecciona), um professor contratado não sabe o que é ter a certeza de um trabalho numa terra escolhida por si e a possibilidade de planear uns anos à frente. Para além disso, mesmo que fique colocado, pode não ser logo no início do ano lectivo ou pode ter horário incompleto, com as devidas repercussões no seu salário mensal. O horário de componente lectiva de um professor é de 22 horas, o que significa que o professor tem que estar na escola estas horas a cumprir as suas funções, enquanto que as restantes tarefas – que completam as horas semanais exigidas, ele pode fazer onde quiser. E são muitas estas tarefas, desde preparar as aulas, fazer e corrigir testes, organizar viagens de estudo, ter reuniões com os outros professores, participar em acções de formação exigidas para prosseguimento na carreira. Imaginem quantas horas passa um professor a corrigir testes de 6 turmas de 25 alunos = 150 testes (que não são de escolha múltipla).
Para os professores não contratados, ou seja, que já tenham algum tipo de vínculo à função, podem ganhar salários brutos entre 1500 e 3076.29 Euros, entre o índice 167 (escalão 1) e o índice 370 (escalão 10). A subida de escalão, quando não está congelada, exige vários anos de serviço e boas avaliações, e nalguns casos a disponibilidade de vagas. Por exemplo, para um professor passar do 1º ao 4º escalão, de um salário bruto de 1500 para 1916.02 Euros, tem que trabalhar 16 anos. Sem contar com os anos que esteve a contrato, porque ao contrário de qualquer outra profissão de carácter dependente, não há limite máximo para o número de anos a contrato nem obrigatoriedade de efectivar depois de 3 contratos.

Olhando para os números e tendo em conta a média de salários em Portugal, nem parece assim tão mal. E não seria, não fossem todas as outras tropelias às condições de trabalho. Falo, por exemplo, do facto do professor ser obrigado a aceitar o horário nos dois dias a seguir à publicação da sua colocação, mesmo que tenha que atravessar meio Oceano Atlântico. Falo do facto de, caso não aceite, não poder concorrer nos dois anos seguintes, independentemente de ser um horário mínimo (pode ser até 6 horas) e extremamente longe da sua residência. E por esta razão temos professores com horários de 10 horas semanais a deslocarem-se centenas de quilómetros da sua casa e, literalmente, a pagar para trabalhar. Sem receber subsídio de deslocação ou ajudas de custo para a (segunda) casa que terão que arrendar, como acontece noutras actividades da função pública onde a mobilidade é recompensada. Falo do desgaste psicológico próprio de uma profissão ligada à educação e à frustração de ter que deixar os seus próprios filhos com alguém enquanto se desloca para ensinar os filhos dos outros, sob pena de perder tempo de serviço que poderá não servir para nada quando decidirem mudar as regras do jogo já quando os jogadores estão em campo.

Tudo aquilo que aqui escrevi é realidade para muitos professores, para os educadores das nossas crianças e jovens. É óbvio que também nesta profissão, como em todas as outras, há bons e maus profissionais, há professores responsáveis e outros oportunistas. Todos nós tivemos o nosso professor besta e o professor bestial, os nossos filhos também terão as suas boas e más experiências. É certo que alguns conseguiram subir na carreira à custa de falhas do sistema ou tirando vantagem das características da profissão, e foram gozando a autonomia de horário para se acomodarem a um trabalho seguro ao qual dão pouco. Há professores a ganhar muito que fazem pouco, como há políticos, arquitectos, médicos, bancários, contabilistas, cabeleiros, electricistas, secretários. Mas não arranjemos justificação no mau exemplo de alguns para culpar todo um grupo profissional, apesar da tendência maledicente que nos vem nos genes. Apesar do descrédito associado à actual classe política, eu acredito que alguns são extremamente competentes e que dão muito ao país. Em relação aos professores, eu sei que há muitos que valem o seu peso em ouro e que, apesar de todas as contrariedades, continuam a cumprir escrupulosamente a sua missão.
  
É por eles, pelos professores que se esforçam e que querem trabalhar com dignidade, que escrevo este texto. Porque me sobe à garganta uma onda de revolta quando ouço alguém comentar que os professores são uma cambada de preguiçosos que merecem tudo aquilo que lhes estão agora a fazer. Quem diz isto não sabe o que é ser professor, hoje.

Fonte dos dados salariais:  http://www.spgl.pt/cache/bin/XPQ3jTwXX11903eV28FetSMaZKU.pdf

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ritorno (regresso)

Como posso descrever o regresso a um local que me deu tanto? Como expressar o que senti quando revi pessoas que foram a minha família durante 3 anos depois de meses de separação? Talvez com a mesma naturalidade com que me orientei na vila como se lá tivesse crescido, ou com o à-vontade do abraço partilhado e a fluidez da conversa, contando o que nos tem feito vibrar nos últimos tempos. Foi assim a minha última semana, entre passeios à beira-lago a comer um gelatto delicioso e pizzas a ver jogos de futebol do Europeu. E foi bom, tão bom! Voltar a um sítio que se conhece bem, às cores e aos sabores que o caracterizam e, ao mesmo tempo, sentir que o tempo não parou ali. Um local, como as pessoas, segue em frente mesmo sem nós.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Notícia do dia de ontem

Um licenciado em Cinema e Audiovisual recebeu uma proposta para um trabalho como Operador de Câmara. Como seria um trabalho muito gratificante para ele, tanto a nível pessoal como profissional, foi-lhe oferecido o pagamento não em dinheiro mas em produtos capilares.
O meu pensamento: só podem estar a brincar! Quem acha que isto é uma proposta de trabalho deve ter os neurónios todos de férias. Ou então gosta de ter escravos em redor. Ou acha que as pessoas que quer contratar – não ele – vivem só do ar. Ou então tem muitos produtos contra a seborreia em casa porque a sua mulher é cabeleireira e assim dava vazão aos caixotes de produtos que tem na arrecadação sem gastar mais nenhum tostão.
Nenhuma destas razões é válida para uma proposta de trabalho como esta. E não me venham dizer que a situação está má e que tem que ser assim para o país ir para a frente, que temos que nos sujeitar às condições (quais condições?) que nos oferecem. Assim o país não vai para a frente, não é preciso ter um curso em economia para o saber. O nosso tempo, o nosso conhecimento, a nossa experiência são elementos preciosos que têm que ser valorizados. Têm que ser pagos por um preço justo que compense o tempo que passamos longe da nossa família e a fazer o melhor que podemos o que outros nos pedem.
O licenciado anda agora nas ruas a sensibilizar para a falta de escrúpulos daqueles que se querem aproveitar do contexto de crise para se desviar do caminho da integridade de direitos profissionais. Eu estou com ele.