Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Il Cenacolo - A Última Ceia

Desde pequena que me lembro deste quadro pendurado na parede de casa dos meus pais e da maior parte das casas dos meus amigos. A pintura de Leonardo da Vinci é, provavelmente, a mais famosa do mundo artístico e, por aquilo que representa, também do mundo cristão.
As tropelias do destino trouxeram-me para perto desta obra de arte, na realidade uma parede com cerca de 12 m2 pintada no antigo refeitório da Chiesa di Santa Maria delle Grazie, em Milão. Entre 1493 e 1497, Leonardo recria uma das cenas mais dramáticas da vida de Cristo, quando ele diz aos seus apóstolos "Em verdade vos digo, um de vós me trairá" (Evangelho de S. Mateus). Na pintura, pela forma como a sua boca se apresenta, Jesus parece estar a acabar de dizer esta frase e os apóstolos representam as possíveis reacções às suas palavras: os que estão mais longe de Jesus perguntam aos outros se ouviram bem, os que estão mais perto são interpelados para confirmarem o que os restantes ouviram, segundo as leis da acústica que Leonardo estudava nessa altura.
A obra foi mandada pintar por Ludovico Il Moro, o Duque de Milão que acalentava o desejo de ser sepultado nesta Igreja, erigida pouco tempo antes. Conta a história que, em 1499, os franceses invadiram Milão e a família real fugiu, levando consigo o segredo do paradeiro da sua sepultura, ainda hoje desconhecido. Nesse período, Leonardo segue para Veneza, deixando para a eternidade (se durar até lá) uma obra impressionante, apesar dos efeitos nefastos do tempo e do uso. Um dos maiores atentados à integridade da obra é bem visível na imagem; em 1640, os monges que habitavam a Igreja sentiram a necessidade de construir uma porta de acesso (provavelmente) à cozinha, destruindo para sempre as pernas de Jesus, João (à esquerda) e Tomé (à direita de Jesus na imagem). João é uma personagem polémica, segundo Dan Brown seria antes Maria Madalena. Aqui não se acredita nisso. João era o apóstolo mais novo e por isso aparece ainda imberbe. Outra das teorias está associada à orientação sexual de Leonardo, homossexual, que poderia ser a razão porque pintaria traços mais femininos em homens. Seja qual for a razão, João aparenta sem dúvida ser jovem, tem cara angelical e ar etéreo, como se nenhum pecado pesasse ainda sobre ele.
Há também quem diga que Leonardo se pintou a ele próprio na imagem, na figura que representa Judas Tadeu (o apóstolo grisalho, o segundo a contar da direita da imagem). São Pedro, o outro apóstolo grisalho da imagem colocado no lado esquerdo da pintura, aparenta dizer algo a João, provavelmente a tentar confirmar as palavras que Jesus acabara de proferir. Com a sua mão direita segura uma faca, supostamente uma associação a um dos episódios seguintes retratados na Bíblia, quando Pedro corta a orelha direita a um soldado (alguns fantasiosos dizem que a mão é aleatória e que não pertence a ninguém na figura, como se uma 14ª personagem estivesse escondida...)
Outra das coisas que retive foi o facto de não haver nenhum cálice na mesa (aquela taça que o Indiana Jones encontra não aparece em lado nenhum na pintura). Judas Iscariote está representado com o saco de 30 dinares na mão e o seu rosto é mais escuro e sombrio, contrastando com o de Pedro (face branca e cabelo grisalho). A paisagem retratada na parte de trás seria supostamente a existente em redor da Igreja naquela altura. As paredes do lado direito na imagem estão pintadas de mais claro, como se estivessem a receber mais luz... e de facto estão, Leonardo aproveitou a direccionalidade da luz natural para tornar a pintura mais real e melhorar a visão em perspectiva.
Há muitos outros pormenores artísticos e religiosos que tornam esta pintura tão especial, quem sabe se alguma vez conseguiremos desvendar todos eles... eu não creio que precisemos de esmiuçar todos os detalhes desta obra, vale a pena só olhar para ela e sentir os pedaços da história retratados por mentes talentosas.

7 comentários:

  1. Que Diabo..quase me convertias com a tua prelecção!
    :)

    Beijos na Índia!

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  2. Nem sequer gosto de blogs (até o nome é morronhento). Mas depois vejo uma fotografia de Tóquio (conheço isto...!?), depois caras conhecidas e depois,depois,depois, não apreço...Amuei

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  3. Também vou fazer um blog (hugh!?) e não te ponho a ti. Bem feita!

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  4. E vou encher isto de comentários jocosos.....

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  5. Lá por Leonardo não ter desenhado nenhum cálice não quer dizer que eles não tenham existido. Segundo a Bíblia existiu, para tomar o vinho da última ceia. Não acho que fosse costume beber o vinho pela garrafa :)
    Mas achei a descrição muito boa, e só prova também que Dan Brown tem uma imaginação danada!

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  6. Caro Anónimo,
    Já que gostas de encher a minha folha de comentarios com aquilo que te apetece, bem que te podias identificar. Assim podia procurar uma foto tua, talvez a metesse no blog.

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