Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Conheces Saramago?

“Conheces Saramago? Ele morreu.” disse-me o meu colega grego depois de ter lido as noticias gregas online. Fiquei um bocado atordoada com esta novidade e fui logo ler as notícias portuguesas, se os jornais gregos falam nele os portugueses também. Na página do Público era legível em letras gordas. Sim, José Saramago morrera. Uma tristeza intensa atingiu-me as entranhas. Sei que é um bocado estúpido, já devia estar à espera, ele no alto dos seus 87 anos, nos últimos tempos com diversas interrupções nos seus afazeres devido a doença e sem escrever no seu caderno online desde há vários meses. No dia anterior tinha ido espreitar o seu caderno, depois de algum tempo ausente, e reparei que agora, em vez dos textos originais que comentavam acontecimentos actuais, estavam pedaços dos seus livros escolhidos por outra pessoa, como se de alguma forma soubessem que a sua vida seria interrompida.

Se conheço Saramago? Conheço aquilo que interpreto dos seus livros, e li alguns. E conheci-o pessoalmente, quer dizer, partilhámos a mesma sala, numa homenagem ao então recentemente galardoado Nobel da Literatura no Teatro Gil Vicente em Coimbra, em 1999, quando o Coral de Letras do qual eu fazia parte foi convidado a cantar uma peça musical em honra do escritor. Cantámos uma canção que fazia jus ao seu constante arreliar de pensamentos e preconceitos, chamada “Acordai”. Lembro-me da sua pose serena e do seu sorriso subtil enquanto nós cantávamos nervosamente (mas bem, devo dizer). E lembro-me que foi nessa altura que decidi começar a ler Saramago. O “Ensaio sobre a Cegueira”, emprestado por uma amiga, foi o livro escolhido. A escolha certa, de leitura relativamente fácil (para os padrões de Saramago) e enredo envolvente. Forte. Controverso. Que me deu vontade de ler mais. E li, sempre que pude. Só ainda não consegui ler o Evangelho Segundo Jesus Cristo, da primeira vez que tentei, pela complexidade da língua e da história, não passei da décima página… não era a altura certa para o fazer, suponho.

Há várias coisas que me impressionam na escrita de Saramago. A sua capacidade extraordinária de se exprimir sem seguir as regras rígidas da gramática. Sim, mesmo sem os pontos e as vírgulas no sítio certo percebe-se perfeitamente o seguimento da história. E também me impressionam as pérolas de sabedoria que aparecem no meio do enredo, como se ao improviso um simples acontecimento quotidiano nos permitisse vislumbrar uma verdade universal. Aquela que mais gosto é do livro "A viagem do Elefante" e diz "Dando tempo ao tempo, todas as coisas do Universo acabam por se encaixar umas nas outras." Gosto.

domingo, 13 de junho de 2010

O mar..


... faz-me falta. O cheiro da água salgada, o som do bater das ondas (mesmo minusculas) nas rochas. Sentir a areia a deslizar devagarinho pelos dedos dos pés. O azul-esverdeado da água e o efeito da água salgada nos meus caracóis. Tudo isto me faz falta e só me apercebo verdadeiramente quando vou ao mar, o que aqui não é muito frequente. Tenho lago à porta, mas não é a mesma coisa.
Mas ontem fui ao mar, numa visita em grupo à Liguria (área de Génova), onde o mar Tirreno, uma das divisões do Mar Mediterrâneo, esculpe a costa rochosa. Onde o conceito de praia é muito diferente do que estou habituada (2 metros quadrados de seixos pode ser uma praia), onde a areia é escassa e quando existe, foi transportada artificialmente de outra parte qualquer. Onde nos exigem 23 euros para entrar numa praia apetrechada com cadeiras, com um bar, um pedaço de mar limitado por uma corda e muito pouco espaço livre (só para as cadeiras e para pousares o saco ao lado). Onde nas praias consideradas públicas, não podes levar a tua própria cadeira, só a toalhita, para justificar o preço que cobram pelas praias apetrechadas. Mas onde o mar é calmo e mais quentinho do que o meu Oceano Atlântico e onde posso mergulhar à vontade e ficar com a pele a saber a sal. Onde a cor da água me fascina. Onde posso recolher seixos coloridos e disformes para enfeitar a minha casa. No mar, seja ele qual for.

Santa Margherita

A praia de Paraggi

Um pequeno e vistoso habitante daquelas paragens
 O mar Tirreno

É claro que a Liguria é terra de gente fina, com iates a flutuar nos portos. Portofino e Santa Margherita são estâncias turísticas de preços exorbitantes. Uma espécie de Tróia ao nível italiano. Mas com o conceito de praia paga (como é que se pode ser dono de um pedaço de mar?) levada ao extremo. E onde quem lá vai sabe que paga, e paga bem, para permanecer ao sol numa cadeira colocada à beira-mar numa plataforma de cimento. Uma noção de divertimento que me transcende... prefiro as praias pequeninas e escondidas que encontramos ao acaso enquanto caminhamos. Onde aquele pedaço de mar é meu por algumas horas, não porque pago para isso, mas apenas porque está ali, disponível para quem o quiser aproveitar.

Uma praia pequenina e escondida que encontrámos ao acaso

O conceito de praia na Liguria

 
A riqueza visível atracada no porto de Portofino

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Experiências urbanas: Viena e Londres

O meu gosto pelas viagens urbanas nasceu tarde. A cidade representava a confusão, o stress, a poluição, o trânsito e principalmente o afastamento em relação à natureza. A possibilidade de se sentir só numa cidade, onde vivem mais pessoas, intimidava-me. Com o passar dos anos e com a vivência de várias cidades, aprendi a olhar também para os aspectos positivos: a actividade constante, o acesso à cultura, a novidade ao virar da esquina, as cores, os cheiros e o frenesim. A cidade vibra de vida, com tudo o que isso implica de bom e de mau. Descobri que gosto de cidades, porque são o reflexo mais evidente da capacidade engenhosa do ser humano, tornando possível a coexistência num espaço limitado de coisas tão diversas como igrejas antigas e arranha-céus de vidro, pequenas hortas urbanas e auto-estradas, lojinhas sombrias e acanhadas e gigantescos centros comerciais. E pessoas, das mais diversas origens e com a mais diversa bagagem cultural. A cidade é, ao fim e ao cabo, uma encruzilhada fascinante de tudo aquilo que o ser humano representa, necessita ou deseja.

As minhas últimas viagens por este mundo fora passaram por duas grandes cidades europeias: Viena e Londres.
Viena

Viena possui uma aura de nobreza inigualável. Não é só pelo Palácio da Sissi (quem não se lembra da Romy Schneider a passear pelas salas e corredores do palácio enquanto morria de amores por Francisco José?), mas também as ruas largas debruadas de árvores em flor, os parques relvados, as carruagens puxadas por cavalos (pobrezitos), os telhados verdes da cor do cobre quando encontra a água. Viena é também esplanadas, fontes e relógios de imperadores. Senhoras idosas a comer gelados. Schnitzel (um simples panado com um nome difícil) e piano com mel (entrecosto grelhado pincelado com mel). A maior feira de diversões que eu já vi. Ópera disponível na praça para quem estiver disposto a sentar-se à chuva em frente ao ecrã. Estátuas de mulher-leão, com asas. Chocolate “Ildefonso” e “Mozart”. Chuva constante, daquela miudinha molha-todos. Segurança e passeios nocturnos pela Baixa de luz dourada. O rio Danúbio, mais pequeno do que imaginava. O nome de uma rua dedicada a Aristides de Sousa Mendes (será que a maioria dos portugueses sabe quem ele foi?). Chocolate quente com chantilly num café típico onde se espera na fila para se poder sentar. Jantar entre amigos.

Londres

Londres, por sua vez, tem aquele ar cosmopolita e desinteressado, como quem sabe que é dona do mundo e parece não querer saber. Mas quer. Cada esquina daquela cidade é passada a pente fino para garantir que o conforto e a segurança são respeitados. As casas dos bairros das classes média e baixa são todas iguais, sem varandas (para que queres varanda se chove quase sempre?), revestidas de tijolo castanho e com rendilhado branco nas janelas. Minúsculas e caríssimas. Mas bonitas, pelo menos por fora.
Londres move-se a uma velocidade impressionante. Nos diversos mercados que proliferam pela cidade e nas principais ruas comerciais, como a Regent e a Oxford, sente-se a vibração da metrópole e a vivacidade dos seus habitantes. Ou talvez tenha sido do tempo de Verão que tive a sorte de apanhar, segundo dizem o Verão inglês dura apenas uma semana e pode ocorrer entre Maio e Agosto (este ano parece que foi em Maio). O mercado de Camden, a norte da cidade, é uma versão alternativa ao estilo conservador inglês, onde se reúnem espaços de restauração de todo o mundo, desde a Tailândia ao Brasil, e onde se pode encontrar vestuário gótico, hippy ou dread, onde se podem fazer tatuagens de todas as cores e feitios, onde jovens de cabelo rosa ou verde se passeiam descansadamente pela rua e onde os bancos das esplanadas podem ser metade de uma vespa (falo das motas, claro).

O mais engraçado em Londres é poder passar do estilo alternativo ao estilo glamour em poucas estações de metro. As ruas Regent e Oxford oferecem Prada e Levi’s. E uma loja de brinquedos de 5 andares onde os empregados se divertem a fazer bolhinhas de sabão, a lançar helicópteros e a brincar aos piratas. Que belo emprego! E que rebuliço naquelas ruas, até parecia que quando há sol em Londres é possível faltar ao emprego e ir às compras.
Ou então deitar-se de biquíni na relva de um dos parques urbanos, como o Green Park junto ao Palácio de Buckingham, desta vez com elefantes artisticamente coloridos que despertam a curiosidade dos passantes. Foi neste jardim que experimentei a Urban Picnic Box, uma ideia eventualmente nascida da “Bento box” do Japão e que é, simplesmente, uma refeição numa caixa para apreciar em qualquer espaço público da cidade.
Foi também em Londres que aprendi a origem da forma tradicional dos bolos de noiva. A Igreja de St Bridget (também chamada St Brides), na margem norte do Rio Tamisa, tem esse formato e diz-se que um famoso pasteleiro do séc. XVIII fez o bolo de noiva para o casamento da sua filha inspirado na torre da Igreja com essa forma, uma ideia depois aproveitada por outros mestres da doçaria e que perdura até hoje. Londres é assim, uma influência subtil mas vigorosa na vida europeia. Como por exemplo as peças de Shapeskeare que enchem teatros por esse mundo fora.