Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Notícia do dia de ontem

Um licenciado em Cinema e Audiovisual recebeu uma proposta para um trabalho como Operador de Câmara. Como seria um trabalho muito gratificante para ele, tanto a nível pessoal como profissional, foi-lhe oferecido o pagamento não em dinheiro mas em produtos capilares.
O meu pensamento: só podem estar a brincar! Quem acha que isto é uma proposta de trabalho deve ter os neurónios todos de férias. Ou então gosta de ter escravos em redor. Ou acha que as pessoas que quer contratar – não ele – vivem só do ar. Ou então tem muitos produtos contra a seborreia em casa porque a sua mulher é cabeleireira e assim dava vazão aos caixotes de produtos que tem na arrecadação sem gastar mais nenhum tostão.
Nenhuma destas razões é válida para uma proposta de trabalho como esta. E não me venham dizer que a situação está má e que tem que ser assim para o país ir para a frente, que temos que nos sujeitar às condições (quais condições?) que nos oferecem. Assim o país não vai para a frente, não é preciso ter um curso em economia para o saber. O nosso tempo, o nosso conhecimento, a nossa experiência são elementos preciosos que têm que ser valorizados. Têm que ser pagos por um preço justo que compense o tempo que passamos longe da nossa família e a fazer o melhor que podemos o que outros nos pedem.
O licenciado anda agora nas ruas a sensibilizar para a falta de escrúpulos daqueles que se querem aproveitar do contexto de crise para se desviar do caminho da integridade de direitos profissionais. Eu estou com ele.

sábado, 21 de abril de 2012

Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Estou no avião de regresso a Lisboa. Lá fora o sol espraia os seus raios cor de fogo por cima do manto de nuvens, flocos brancos amontoados sobre o Mar Mediterrâneo que o avião sobrevoa como uma águia vigilante. Hoje tenho direito a um pôr-do-sol prolongado, graças à hora de diferença entre a origem e o destino. Entretanto acabei de ler o livro francês que tinha trazido, este meu projecto concretizou-se graças à capacidade narrativa de Katherine Pancol e ao despertar daqueles meus neurónios que guardavam a sete-chaves o vocabulário de francês. Adoro quando um livro me faz desejar que o tempo não passe para poder continuar a ler! É preciso ter talento para cativar e esta história fascinou-me. Mais do que isso, a força e veracidade das personagens inspiraram-me a olhar melhor para as pessoas que tenho em redor, e principalmente para mim mesma.

Não quero estragar a surpresa de quem quer ler o livro, mas posso dizer que a história fala de pessoas que podiam ser reais, de França e Inglaterra, e de crocodilos de olhos amarelos. Fala de dinheiro, de relações decadentes, de fragilidades humanas, das futilidades de um estatuto social elevado, de mudanças difíceis. Mas também fala de coragem, de sonhos, de esperança, da força que vem do amor, do valor do trabalho árduo. Fala dos escolhos e das recompensas que a vida nos dá em qualquer fase da vida e da possibilidade que temos em dançar com ela, com a vida, em vez de a tentarmos impedir de seguir o seu ritmo. Recomendo.

15 Abril 2012 - De Lisboa a Nancy

4h15 da manhã. Espero pelo táxi à porta de casa, pouco protegida do frio da madrugada. O vizinho do primeiro andar aparece à entrada, fresco que nem uma alface, e pergunta-me se preciso de alguma coisa. “Estou à espera do táxi, vou para o aeroporto.” Se quiser pode vir comigo, estou a pegar agora ao trabalho”. Assim se explica o táxi estacionado na praça em frente à casa. Entretanto o meu táxi chega e recuso gentilmente a oferta do meu vizinho, “para a próxima já sei onde bater, obrigada!”
O aeroporto está vazio a esta hora, falta o frenesim e a energia vibrante de pessoas em movimento, vindas de todo o lado e partindo para tantas direcções. As lojas estão fechadas e decido matar o tempo de espera pegando no livro que trouxe de casa. Um livro francês, recomendado por uma amiga e com um título estranho que, apesar disso, me encantou: “Les yeux jaunes des crocodiles” (Os olhos amarelos dos crocodilos). Comprei-o em francês, na esperança que me servisse para recuperar o vocabulário perdido por uma década sem falar a língua, ainda quando andava no curso de francês em Ispra. Ou seja, o livro tem estado na prateleira há 6 meses e sobreviveu a uma viagem de camião pela Europa fora e à mudança para Lisboa. Agora que vou para França uma semana, faz todo o sentido levá-lo; ainda por cima tem uma capa toda colorida e animada, pode ser que me motive para treinar o francês e fazer boa figura nas boulangeries francesas. Só para esclarecer, o título fala de crocodilos mas a história desenrola-se maioritariamente em Paris onde, obviamente, os crocodilos não abundam… por isso também quero descobrir de que tipo de crocodilos fala (depois vos direi).
A viagem de avião decorre sem problemas, apesar do mau tempo e do frio que sinto na barriga quando o capitão fala nos 5º de temperatura em Paris, céu cinzento e chuva miudinha. Raios, estamos em plena Primavera com tempo de Inverno! Atravessar o aeroporto Charles de Gaulle demora uma eternidade e tenho que apanhar o comboio para o centro, onde um TGV me espera. Que belo comboio! Limpo, confortável e pontual. Cheio de gente, o que para mim foi uma surpresa, não é um transporte barato, mas aparentemente eficiente e economicamente viável.

Chego a Nancy de mochila às costas e sigo o mapa para chegar a pé à AgroParisTech, uma escola tecnológica de agronomia com residência de estudantes onde nos vão instalar durante esta semana de curso. A cidade está vazia, ao domingo está quase tudo fechado e é semana de férias para os estudantes universitários. Na residência, outros estudantes de doutoramento que vieram para o mesmo curso esperam pacientemente pela chegada do comité organizativo. São da Áustria, da Estónia, da Suécia, da Finlândia, da Alemanha. O comité chega e levam-nos cada um para os seus aposentos, um quarto de 15 m2 com armário, secretária e um lavatório, de paredes verde-água e chão amarelado. A austeridade do quarto acaba por me impressionar e relembra-me o sacrifício a que os estudantes se submetem. Também eu vivi num quarto, partilhado, nas casas velhas de Coimbra. Na altura nem pus em questão a falta de espaço, de outras divisões onde me mover, de cozinha própria, de liberdade de movimentos. Estava fisicamente limitada e não me importava nada. Agora importo e entrego-me minimamente ao apego às coisas materiais que fui adquirindo ao longo dos últimos anos, coisas pequenas como a chávena comprada em Salamanca, a colecção de copos da Nutella, o poster dos Alpes italianos que colo na parede da sala…
Nancy pertence à região de Lorena, disputada pelos alemães durante séculos. A praça principal, Stanislau, debruada de portões pretos e dourados, é património mundial. Pelo centro da cidade, pequena mas simpática, despontam edifícios majestosos e igrejas de estilo gótico que lhe dão um ar imperial. É tudo perto, à distância de 15-20 minutos a pé e vagueamos à noitinha pelos bares da cidade, como se espera de um grupo de estudantes de toda a Europa ávidos de novidade e do sabor das cervejas belgas ou alemãs. Neste grupo percebi realmente o significado de globalização; para a maioria dos meus colegas, a nacionalidade não revelava o sítio de onde vinha, por isso encontrei um indiano da Suécia, uma brasileira da Alemanha, uma búlgara de Itália, um austríaco da Suécia, uma portuguesa da Inglaterra. Adoro aquelas conversas de críticas ou elogios subtis aos países de onde vieram e àquele onde agora moram, o ser humano tem tendência para as comparações. Fala-se de comida, do tempo, do estado das estradas, da maneira de falar, do grau de simpatia, da capacidade de trabalho. Aprendo muito sobre as diferentes formas de ver o mundo, de o capturar e recriar através das lentes culturais com que todos somos dotados desde criança.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Perfect timing

Ontem.
Pequeno-almoço desastroso, com uma "moka" de café entornada e a cozinha toda estornicada. Bolas, o dia começa mal. Menos mal que não houve queimaduras. Atraso de 50 minutos em relação ao planeado... vamos a ver se consigo chegar ao ISA antes do gabinete fechar para almoço. Na estação de metro, 30 segundos de espera e o metro chegou. Começa a melhorar. O autocarro na Praça da Figueira chega também em 2 minutos. Boa! No mesmo autocarro entra um colega que conheci numa conferência em Itália e pomos a conversa em dia. Vamos para o mesmo sítio e a conversa faz o tempo passar num instantinho.

Chego ao ISA e o gabinete estava aberto, em 10 minutos trato de tudo o que preciso e saio para apanhar o autocarro de regresso à Baixa, que chega em 1 minuto. Foi tudo tão rápido que a viagem de vinda ainda era válida (dura 70 minutos) e com isso poupo 1,60 Euros.
Acabadinha de me sentar recebo uma chamada, o meu irmão estava mesmo a chegar à Baixa. Fixe, vamos almoçar! E depois provar um gelado italiano do Santini (delicioso!). Por esta altura claro que já me tinha esquecido do café entornado.

Depois, loja do cidadão nos Restauradores para pedir o Cartão Europeu de Saúde. São 13h39 e tenho quase 200 pessoas à minha frente... hum, voltarei mais tarde, ou então amanhã. A conferência na Sociedade de Geografia a que assisti a seguir dura 2 horas para mim e saio para ir à Gulbenkian, a outra conferência que me interessa. Passo pela loja do cidadão só para espreitar o número de senha... são 16h45 e faltam só 3 números para a minha vez. Boa!
Trato do cartão e sigo para a Gulbenkian, mesmo a tempo de me indignar com a comitiva governamental que segue na estrada com escolta policial, obrigando todos os outros carros de pessoas normais a encostar e deixá-los passar. Vão para o mesmo sítio que eu, mas eu vou de metro e a pé e eles de BMW, Mercedes ou Audi pretos e rodeados de capangas de óculos escuros. Não sou a única a indignar-me, um senhor que caminha quase ao meu lado balbucia injúrias a quem segue na comitiva, enquanto ele se dirige também a pé à Gulbenkian. Não interessa, no fim de contas eu tenho o universo a ajudar-me com o perfect timing das minhas actividades, não preciso de capangas, de Mercedes nem de pirilampos giratórios barulhentos.
  

E regresso a casa com aquela boa sensação de dever cumprido adocicado com as boas surpresas do dia.