Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Em busca das cores

Era imediato. Quando me falavam desta cidade, era isto que me vinha à cabeça: cinzento. As poucas vezes que passei as pontes sobre o Douro parecia ver um véu espesso a impedir a passagem de luz, mergulhando a cidade numa escuridão leve. Desta vez, sacudi as ideias feitas e coloquei o meu olhar mais atento. Cinzento? Nada disso. O Porto vibra de cor.

O céu nublado e os chuviscos intermitentes não auguravam um dia fácil. A ideia da atmosfera cinzenta colava-se na minha mente. E por ser a terceira vez que percorria o centro do Porto em busca de um lugar para estacionar, o cinza adensava-se cada vez mais. Decidida a não me deixar vencer pelo mau-humor meteorológico, dou mais uma volta ao quarteirão e tenho sorte. O Sr. Fernando, de barba grisalha e ar maltrapilho, mas de certeza enviado pelos anjos, tinha um lugar reservado para mim. Agradeceu amavelmente a gorjeta, enquanto apontava para a fachada branca da reitoria da Universidade, sobranceira à rua das Carmelitas, onde ele costumava cirandar.

Foi nesta rua que comecei a volta pela cidade, seguindo em direcção à Cadeia da Relação. De soslaio reparo na brancura da Igreja dos Clérigos, debruada de pedra, antes de atravessar as abóbadas da cadeia, actualmente a morada do Centro Português de Fotografia. Também aqui me deparo com o Branco, castigado por um amor de perdição. Camilo (Castelo Branco) abraçou estas paredes roídas pelo tempo, enquanto criava o destino de Simão e Teresa. Respiro as últimas partículas das memórias que por ali flutuam e sigo por um destino diferente, em direcção à Vitória.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Cisnes selvagens - e como Mao moldou um povo

No início do século XX, numa área rural de um país asiático, uma menina de 2 anos é submetida a uma antiga tradição que, supostamente, lhe garante um casamento. A primeira coisa que a família do noivo analisava era se a pretensa noiva tinha os pés do tamanho adequado, ou seja, se seriam “lírios dourados com 8 centímetros”. Minúsculos, portanto. Para terem este tamanho mini, os ossos dos pés das meninas eram partidos e os pés eram continuamente enfaixados com longas tiras de tecido, para evitar que os ossos voltassem ao lugar.












Há uns bons anos atrás, uma amiga partilhou comigo esta pequena história de um livro que acabara de ler. Seguindo o seu conselho já antigo, e também por curiosidade por esta cultura milenária, lancei-me com entusiasmo às mais de 500 páginas deste livro, tão poeticamente chamado de “Cisnes Selvagens”. Estes “cisnes” são três mulheres: a autora do livro (Jung Chang), a sua mãe e a sua avó. Contado na primeira pessoa, este livro não é um mero retrato familiar; é um retrato da China e da sua história recente, e uma descrição vívida de como a cultura e a política – e a megalomania de uma minoria - podem influenciar as mais pequenas opções de seres humanos comuns.


A menina de 2 anos que mencionei há pouco é a avó de Jung. Oferecida pelo pai para ser concubina de um general, a troco de uma posição laboral influente, vê-se obrigada a fugir com a sua filha para a poder manter consigo. A sua filha – a mãe de Jung – torna-se membro do Partido Comunista e dedica a sua vida ao Partido e a Mao (Tse-Tung) que, dependendo dos seus humores e segundas intenções, tanto a respeita como directora de um instituto como a persegue, aprisiona e tortura. Jung também sofre com as histerias de Mao e é enviada para as montanhas para aprender com os camponeses e ser reeducada através do trabalho árduo.