Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

sábado, 26 de setembro de 2009

Encantos da Puglia (leia-se Pulhia)

Alberobello

Os Trullis, casas do século XVI construídas em pedra que eram facilmente desmanteladas pelo telhado (como se o gargalo de uma garrafa se desmantelasse quando a rolha se abrisse). De cada vez que o cobrador de impostos passava, os habitantes desmanchavam (literalmente) as suas casas, evitando pagar o dízimo... acho que é a mais trabalhosa fuga aos impostos que conheço...



Locorotondo... florido e colorido


Ostuni, uma cidade ao estilo árabe

O mar Adriático

Il vuolo del'Angelo (O voo do anjo)

Imaginem que chegam a uma pequena vila no topo de uma montanha de 1000 metros de altitude. Quando lá chegam reparam na pequena vila do outro lado do vale e pensam numa forma de lá chegar rapidamente sem ter que descer e subir outra vez.


EUREKA!!

O voo do Anjo é a solução: pegam num fato-macaco, num capacete e numas cordas, caminham até à beira do precipício, deitam-se no ar agarrados por um cabo de aço, esticam as pernas e os braços e lançam-se no ar a 80km/hora!

Resultado?? 3 minutos a voar a 1000 metros de altitude, a sentir o balanço do vento.

Sem mais palavras... eu voei como um anjo (sem asas)

Confesso...

... que já tinha saudades de "blogar". Já se passaram quase 3 meses desde que publiquei o meu último post (o que vem a seguir sobre Matera foi guardado em rascunho durante umas semanas)...
Dizem que é sempre assim, no início começamos com muita vontade mas depois o tempo escoa-se entre as milhentas outras coisitas que encontramos para fazer durante um dia... no meu caso acho que foi o Verão. O sol lá fora, os banhos no lago, os passeios nos Alpes, os barbecues...
Ao contrário do que se passa em Portugal agora, aqui no norte de Itália o Outono já chegou, as temperaturas diminuiram drasticamente e os chuviscos (e trovoadas) espreitam de vez em quando. Vendo as coisas pelo lado positivo, tenho agora mais oportunidades para ficar em casa e regressar à escrita cibernáutica. Amigos, estou de volta!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Matera: a cidade "Troglodita"

Alguns chamam-lhe “a cidade Troglodita”. Não pela antiguidade, mas pelas casas-gruta escavadas nas rochas. Matera localiza-se na região de Basilicata, que ocupa uma parte do tacão da bota italiana, e é Património Mundial pela Unesco desde o início da década de 80. Os italianos fugidos à invasão dos Turcos (não me lembro em que século), encontraram neste monte calcário a possibilidade de construir as suas casas aproveitando a flexibilidade da pedra e as fissuras do sistema rochoso. Com as suas mãos e as poucas ferramentas de que dispunham construíram abrigos de paredes grossas e tecto redondo, como as grutas. A casa-de-banho era um balde com tampa cujos detritos eram posteriormente despejados no fundo do vale em frente das casas. Por esta razão, a água do rio era inconsumível e era necessário construir uma cisterna em cada casa para recolher a água da (pouca) chuva que caía na região. Doenças como a tuberculose, febre tifóide e malária proliferavam, contribuindo para uma taxa de mortalidade infantil superior a 50%. Apesar disso, as famílias eram numerosas, com uma média de 8 filhos por casal coabitando num espaço com menos de 30 m2. Dentro de casa dormiam também os animais: a indispensável mula para o transporte, a cabra para o leite, o porco para a carne e as galinhas para os ovos (estas tinham direito ao espaço debaixo da cama).



O interior de uma das casas, como era há 50 anos atrás


A cidade de Matera é dividida em duas partes: O Sasso Barisano e o Sasso Caveoso. No Sasso Barisano habitavam os artesãos e no Sasso Caveoso habitavam os pastores e agricultores. Esta diferença de actividade reflectia-se nas condições de vida: os habitantes de Sasso Caveoso eram (ainda) mais pobres do que os habitantes do Sasso Barisano e as suas casas eram (ainda) mais gruta, daí o nome derivado de “Cavia” (gruta em latim). Esta realidade parece pertencer à Idade Média. Puro engano. Há 50 anos atrás era assim que os habitantes de Matera viviam. O sul de Itália era esquecido e estava 100 anos atrasado em relação ao norte progressista. Durante a 2ª Guerra Mundial, no tempo de Mussolini, o escritor judeu Carlo Levi (que vivia em Turim, no norte) foi enviado para o exílio nesta região. As condições miseráveis e a pobreza extrema destas pessoas impressionaram-no e ficaram registadas no livro “Cristo parou em Eboli”, uma metáfora para dizer que a civilização parara na região anterior a Basilicata (Campania). Após o fim da guerra, o livro foi publicado e chamou a atenção dos políticos italianos, que meteram mãos à obra para criar planos de recuperação. Na década de 50, o primeiro-ministro da altura criou um plano de evacuação obrigatória para os habitantes, obrigando-os a mudar para as recém-construídas casas em redor de Matera, hoje a parte principal desta cidade com cerca de 58 mil habitantes. A mudança não foi fácil; apesar das condições mais confortáveis a que tinham acesso na parte nova (casa-de-banho, saneamento, água corrente, electricidade, etc.), a vertente social dos habitantes alterou-se radicalmente: os (pequenos) pátios comuns onde as crianças brincavam, as mulheres lavavam as roupas e os homens trabalhavam deixaram de existir, agora era cada família por si.



A evacuação durou até 1968. Matera tornou-se uma cidade-fantasma, até alguns antigos habitantes demonstrarem interesse em regressar. O governo era o dono oficial das casas-gruta, em troca de 30 anos sem renda nas casas na parte nova, mas deu a possibilidade dos seus antigos donos recuperarem as casas com uma participação de 50% a fundo perdido.
Actualmente, Matera antiga é cheia de vida, com 4 mil habitantes (a maioria comerciantes e donos de hotéis), espectáculos de Verão, noites de fogo-de-artifício, uma viagem confortável ao tempo troglodita entre ruas de pedra estreitas sob a luz da lua cheia. Na praça central, que separa a parte antiga da parte nova da cidade, os homens mais velhos juntam-se ao fim da tarde para conversar e observar os turistas (e são muitos). O filme "A paixão de Cristo" foi filmado nesta cidade e passear nas ruas dos Sassos lembra, de facto, tempos antigos. Do outro lado do vale deu-se a crucificação, sob as orientações de Mel Gibson.


Um dos hotéis de Matera no sasso Barisano


Do outro lado do vale deu-se a crucificação cinematográfica de Cristo


Nesta rua, Jesus passou com a cruz (versão cinematográfica)


Conversando na praça...

O fogo-de-artifício sob a luz de Matera