O dia amanheceu branco… os flocos de neve caíam leve mas constantemente, como pedaços de céu libertos que se espalharam pelo solo. Andei enterrada em 5 a 10 cm de neve durante as várias caminhadas que tive que realizar durante o dia e tomei uma importante decisão: comprar umas botas adequadas a este tipo de tempo, daquelas que não deixam a água infiltrar-se e gelar os pés. No próximo fim-de-semana já tenho programa (compras), eu e alguns dos outros “newcomers” ainda não habituados a estas lides.
Hoje foi um dia administrativo… apresentações para ver, papelada para preencher, contrato para assinar… burocracias necessárias para o bom desenvolvimento do meu trabalho e para receber as respectivas compensações.
Ao almoço – 2,20 Euros por um prato de massa, uma grande salada, água e sobremesa (!) -, juntando uma portuguesa, outra espanhola, uma italiana e uma alemã, analisámos geograficamente várias culturas através da experiência de cada uma: 8ºC e a chover em Agosto em Inglaterra e os ingleses usam sandálias, t-shirt e comem gelados… porque é Verão (não interessa se já está frio). O à-vontade dos finlandeses em correr nus para os lagos gelados nos entretantos dos vapores da sauna. O prazer dos italianos e dos portugueses com a comida. A preferência dos espanhóis por Portugal, daqueles que vivem na proximidade da raia ocidental espanhola. Os banhos de sol dos alemães no sul de Espanha, com apenas 15ºC…
Uma das coisas mais engraçadas de ser nómada é assistir em primeira-mão às reacções de diferentes pessoas aos mesmos estímulos, dependendo da sua origem, da educação que recebeu, das experiências que viveu. E o privilégio de sentir um arrepio na pele com algumas coincidências interessantes que vão acontecendo a mando do universo: um italiano de Nápoles que conhece a Batalha; um italiano de Bruxelas que ama Lisboa; uma alemã que teve um namorado português e que vai trabalhar para o meu departamento; uma caixa de cappuccino da Nescafé à minha espera no supermercado; neve, muita neve, como nunca antes vi, no meu primeiro dia de trabalho… pequenas coisas que tornam ainda mais emocionante a minha estadia aqui.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
1 de Fevereiro 2009. Cheguei!…
… a Ispra, com 0ºC e um manto de neve a cobrir a maior parte do chão. O táxi do JRC esperava-me à hora marcada no aeroporto, levando-me direitinha a casa, um apartamento espaçoso (no meu ponto de vista) só para mim. O armário de roupa permaneceu quase vazio, mesmo depois de ter arrumado toda a bagagem (aquela que a TAP me obrigou a pagar por excesso de peso). A brancura luminosa das paredes e do chão lembra-me que esta casa será minha temporariamente, mas por enquanto basta-me saber que é o meu cantinho. Outros cantinhos como este me rodeiam, ocupados por colegas do centro que ainda não tive a oportunidade de conhecer. Aliás, conheci um, já desde Dezembro quando vim cá a primeira vez. A Chiara (leia-se Kiara), uma siciliana vinda de Londres, ofereceu-se para ficar com a minha chave para eu poder entrar nesta minha casinha ainda hoje. Jantámos juntas, o que pudemos trazer connosco do país de origem e do avião: waffles aquecidas no forno da casa dela, uma sandes da British Airways (bem melhor que as da TAP, por sinal), biscoitos tipicamente italianos com panne e cioccollato, biscoitos com travo a limão da loja da Irene na Batalha, água da torneira… tudo isto regado com uma boa conversa para conhecimento mútuo que fluiu naturalmente. Uma bela duma jantarada, no verdadeiro sentido do termo. Um primeiro dia inesquecível, não só por esta chegada mas também, e principalmente, pela minha partida acompanhada pelo núcleo duro da minha vida: os meus pais, os meus irmãos e a minha irmã. E uma despedida presencial de uma grande amiga, a quem muito devo eu estar em terras italianas hoje. E as despedidas via telefone que fui recebendo, de amigos que não esqueço, esteja eu onde estiver. De uma maneira ou de outra, todos eles estão comigo, agora e em todas as outras peripécias que vierem a seguir.
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