Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Aprender a ler com portáteis...

A notícia não é nova; o governo está empenhado em revolucionar a educação em Portugal através da oferta ou venda a baixo preço de computadores para estudantes. O objectivo é um computador por cada 2 alunos no 3º ciclo e secundário. Hoje li uma notícia que falava em 500 mil portáteis para as escolas primárias. Estas notícias correm lado a lado com as outras que falam de 40 mil professores desempregados, de falta de condições nas escolas, de insegurança, do custo do material escolar... e de outras menos divulgadas sobre famílias disfuncionais, necessidades educativas especiais, pobreza envergonhada...
No início de cada ano lectivo, penso nas consequências nefastas desta troca de prioridades... e assusto-me. Estamos a começar a "casa pelo telhado"; antes de aprenderem a ler e escrever correctamente, as crianças recebem portáteis; antes de saberem como se comportar numa sala de aula, os adolescentes recebem portáteis; antes de terem as suas necessidades mais básicas satisfeitas, os estudantes recebem portáteis.
Não sou contra as novas tecnologias, estou neste momento a utilizar o meu portátil para escrever. Gosto da internet, ainda bem que existe, mas são meios para atingir um fim. Cada coisa a seu tempo. Não começamos a andar de bicicleta antes de aprender a andar.
Há 4 anos atrás, na escola onde dei aulas, numa terra profícua em famílias pobres, com empregos precários, muitas das crianças comiam apenas na escola; quem tinha subsídio a 100% tinha direito a 3 refeições (pequeno-almoço, almoço e lanche). Nos períodos de férias, algumas dessas crianças iam para a fila da cantina, que estava fechada, na esperança de terem comida... Quem, com imensas dificuldades económicas, mas devido a algum erro burocrático não tinha direito a subsídio, passava fome. Literalmente. Um iogurte por dia, apenas. Dias a fio.
Enquanto houver fome nas escolas portuguesas, os portáteis são dispensáveis. Enquanto não houver a noção de respeito pelos outros, os portáteis não ensinam nada. Enquanto não aceitarmos que a educação é a solução para muitos problemas, o investimento será dedicado à tecnologia... para comprar portáteis.

1 comentário:

  1. Simplesmente fabuloso: real e elucidativo da realidade do ensino que o governo pretende para este país.
    Infelizmente muitas pessoas não pensam assim e tentam encomendar a educação dos filhos com pc`s, play stations, telemóveis topo de gama...
    A ver vamos onde este sistema irá parar...ah e a culpa de tudo é dos professores.

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