voltei a Utrecht. Cidade holandesa onde vivi enquanto estudante de Erasmus. Agora com mais edifícios e residências, de muitas cores. Com mais estradas, mais cafés. Com as dezenas de bicicletas estacionadas junto aos postes de luz, como antes. Com canais de água acastanhada e esplanadas nas suas margens. E surpreendentemente com muito sol. Com as mesmas panquecas deliciosas na mesma casa no meio da floresta onde costumava ir. Com amigas portuguesas com quem as conversas fluem até ao nascer-do-sol, acompanhadas de chá e stroopwafels quentinhas.
Regressei a Utrecht, sem nostalgia. Há dez anos atrás viver em Utrecht como estudante fez muito sentido. Tenho muito boas recordações daquele tempo e a certeza de que foi lá que a fase de nomadismo que tanto me fez crescer e me levou a conhecer uma parte do mundo começou. Mas não tenho saudades. Cada coisa no seu tempo. A vida que tenho agora é diferente mas faz mais sentido para a pessoa que hoje sou. Deve ser isso que significa seguir em frente, largar a vida de antes para aceitar a de agora mantendo da vida anterior aquilo que me ajuda a aproveitar a vida que vem a seguir. E de vez em quando voltar aos locais da década anterior, só para espreitar.
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sexta-feira, 25 de março de 2011
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
A primeira janela para o mundo
Há alguns dias atrás recebi uma mensagem de uma amiga que ia a caminho da Holanda, que ela designou de forma certeira como a nossa “primeira janela para o mundo”. A Holanda foi o primeiro país estrangeiro que realmente conheci e onde a semente de exploradora/viajante começou a germinar.
Aos 16 anos, participei no Jamboree Mundial para pioneiros, realizado em Dronten, Flevoland. Mas esta aventura de duas semanas não conta porque estávamos num “país” à parte, criado para nós, escuteiros de todo o mundo. Do país Holanda propriamente dito lembro-me de muito pouco dessa altura (lembro-me sim da cerimónia de abertura, do pórtico de caravela que construímos, do slide sobre o rio, do meu namorado americano e do urso de peluche que ele me ofereceu, baptizado de Pedro por uma colega da Costa Rica, dos fogo-conselho internacionais, do hino “I’m from the future” que ressoou nas nossas guitarras e vozes durante os anos seguintes e da choradeira em frente ao autocarro na hora de regressar).
Conheci bem melhor o país Holanda durante os 7 meses que lá vivi enquanto estudante Erasmus. No dia em que eu e a minha amiga lá chegámos sentimos desde a excitação ao desespero. Era final de Agosto do ano 2000 e estava um calor abrasador em Portugal; em Utrecht, a cidade para onde nos mudámos, também estava calor; fomos directamente para os serviços internacionais onde a minha amiga tinha que ir buscar a chave do seu quarto, mas mandaram-nos aos correios para pagar a renda primeiro. Deixámos as bagagens nos serviços e seguimos para os correios onde tratámos do pagamento, mas a nossa (má) orientação no caminho de regresso levou-nos pelo caminho mais longo e quando finalmente chegámos de novo aos serviços, depois de uma molha descomunal – o calor transformou-se em chuva - e de passarmos em frente ao edifício em U invertido que a minha amiga achou horrível, afirmando convictamente que não gostaria de morar ali, “batemos com o nariz na porta”, com as nossas bagagens e a chave de casa da minha amiga fechadas lá dentro. Estávamos num país estranho, perdidas, sem bagagens e sem casa.
Ahhhhhhhhh! Desespero!
Pensámos em telefonar para o 112, mas não iria resolver nada. Pensámos em dormir numa pensão, mas os florins eram poucos (ainda não tínhamos o Euro). De repente lembrei-me que tinha o contacto da casa que eu iria partilhar com holandeses… e ligámos. Do outro lado da linha, depois de eu me apresentar no meu inglês enferrujado, responde-me uma voz: “Pode falar português, eu percebo, minha mãe é brasileira”. A salvação desceu do céu em sotaque brasileiro, juntamente com as indicações para chegar à minha casa, toalhas e roupa de cama emprestadas e um sorriso que nos encheu de esperança. A aventura tinha acabado de começar.
Foi aí que aprendi a apreciar as coincidências. Foi aí que aprendi que todas as peripécias nos ajudam a crescer e a resolver problemas, no momento ou no futuro. A primeira janela para o mundo tinha acabado de se abrir, depois do esforço inicial...
Ah, é verdade; no dia seguinte, depois de recuperarmos as bagagens, seguimos para a casa da minha amiga, a horrorosa casa em U invertido que tínhamos avistado no dia anterior… Acabou por ser um óptimo abrigo e um bom local para festas temáticas. Cambridgelaan 241 foi um verdadeiro sucesso.
Obrigada Bernardete, por todas estas aventuras que temos partilhado!
Aos 16 anos, participei no Jamboree Mundial para pioneiros, realizado em Dronten, Flevoland. Mas esta aventura de duas semanas não conta porque estávamos num “país” à parte, criado para nós, escuteiros de todo o mundo. Do país Holanda propriamente dito lembro-me de muito pouco dessa altura (lembro-me sim da cerimónia de abertura, do pórtico de caravela que construímos, do slide sobre o rio, do meu namorado americano e do urso de peluche que ele me ofereceu, baptizado de Pedro por uma colega da Costa Rica, dos fogo-conselho internacionais, do hino “I’m from the future” que ressoou nas nossas guitarras e vozes durante os anos seguintes e da choradeira em frente ao autocarro na hora de regressar).
Conheci bem melhor o país Holanda durante os 7 meses que lá vivi enquanto estudante Erasmus. No dia em que eu e a minha amiga lá chegámos sentimos desde a excitação ao desespero. Era final de Agosto do ano 2000 e estava um calor abrasador em Portugal; em Utrecht, a cidade para onde nos mudámos, também estava calor; fomos directamente para os serviços internacionais onde a minha amiga tinha que ir buscar a chave do seu quarto, mas mandaram-nos aos correios para pagar a renda primeiro. Deixámos as bagagens nos serviços e seguimos para os correios onde tratámos do pagamento, mas a nossa (má) orientação no caminho de regresso levou-nos pelo caminho mais longo e quando finalmente chegámos de novo aos serviços, depois de uma molha descomunal – o calor transformou-se em chuva - e de passarmos em frente ao edifício em U invertido que a minha amiga achou horrível, afirmando convictamente que não gostaria de morar ali, “batemos com o nariz na porta”, com as nossas bagagens e a chave de casa da minha amiga fechadas lá dentro. Estávamos num país estranho, perdidas, sem bagagens e sem casa.
Ahhhhhhhhh! Desespero!
Pensámos em telefonar para o 112, mas não iria resolver nada. Pensámos em dormir numa pensão, mas os florins eram poucos (ainda não tínhamos o Euro). De repente lembrei-me que tinha o contacto da casa que eu iria partilhar com holandeses… e ligámos. Do outro lado da linha, depois de eu me apresentar no meu inglês enferrujado, responde-me uma voz: “Pode falar português, eu percebo, minha mãe é brasileira”. A salvação desceu do céu em sotaque brasileiro, juntamente com as indicações para chegar à minha casa, toalhas e roupa de cama emprestadas e um sorriso que nos encheu de esperança. A aventura tinha acabado de começar.
Foi aí que aprendi a apreciar as coincidências. Foi aí que aprendi que todas as peripécias nos ajudam a crescer e a resolver problemas, no momento ou no futuro. A primeira janela para o mundo tinha acabado de se abrir, depois do esforço inicial...
Ah, é verdade; no dia seguinte, depois de recuperarmos as bagagens, seguimos para a casa da minha amiga, a horrorosa casa em U invertido que tínhamos avistado no dia anterior… Acabou por ser um óptimo abrigo e um bom local para festas temáticas. Cambridgelaan 241 foi um verdadeiro sucesso.
Obrigada Bernardete, por todas estas aventuras que temos partilhado!
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