Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

4 de Novembro de 2012, no Gana

6h da manhã. Aqui nos trópicos o sol acorda cedo e a luz do dia já invadiu a cidade. O céu nublado traz-me o nervoso miudinho de uma possível viagem de avião turbulenta, entre Acra e Kumasi. O voo dura 45 minutos e afinal é pouco atribulado. Lá em baixo vê-se a orla da cidade capital, espraiada por longos quilómetros em povoações de casebres encavalitados e infindáveis carreiros de terra batida que as unem à floresta como raízes. Depois vem o verde denso e opaco da floresta, coberto por um manto espesso de nuvens formadas pela respiração das plantas tropicais. A seguir aparece lentamente a cidade dourada do Gana, Kumasi, a segunda maior do país. O avião aterra com surpreendente rapidez e saio para as cores garridas e o clima mais suave da capital do reino Ashanti, onde o rei ainda hoje governa.

 Kumasi, a cidade-jardim
“Kumasi lies amid greenery and flowers, on gentle hillsides. It is like a giant botanical garden in which people were allowed to settle. Everything here seems kindly disposed to man - the climate, the vegetation, other people.” Ryszard Kapuscinsky, “The shadow of the sun” (Ébano).

 A primeira vez que viajei para o Gana foi com ele. A sua paixão por África e o seu talento para a escrita transportaram-me para Kumasi ainda antes de eu lá pôr os pés. Kapuscinsky, jornalista polaco fascinado por África, descreveu de maneira precisa e ao mesmo tempo poética esta cidade – e toda a região da África Ocidental por onde andou nos tempos das revoluções independentistas. Em 1958 descreveu Kumasi como a cidade-jardim. Hoje, o título continua a ser merecido e nem o tráfico intenso a retira do seu pedestal.

Às 9h da manhã já o frenesim está instalado, juntamente com um calor abafado. À saída do aeroporto agrupam-se homens a oferecer os seus serviços de táxi. Eu tenho o Khamel à minha espera, cortesia da empresa pela qual visito o país. Jovem, da minha altura, cara redonda e pele luzidia, apresenta-se com um sorriso tímido. Diz-me que é do Norte, da zona da savana, apesar de ter nascido em Kumasi. Aqui as tuas origens são as da tua família, mesmo que tenhas nascido a centenas de quilómetros de distância. 
Tenho o dia livre e acabo por o convencer a levar-me aos locais mais pitorescos de Kumasi. Começamos pelo lago BosonTwi, a 10 km de distância, uma cratera formada pela queda de um meteorito ocupada pelas águas das chuvas e por crianças brincalhonas. No meio do lago visitamos os tanques improvisados de aquacultura delimitados por tábuas e bidões flutuantes, onde tilapia e peixes-gatos, com os seus bigodes longos como os da minha Mikas, se agrupam aos milhares. Regressamos à vila de Abono onde embarcámos e vemos o carro entregue às esfregadelas enérgicas de um miúdo, demasiado magro para tanto vigor. Khamel refila, não pediu para lhe lavarem o carro, mas cede ao olhar tristonho do miúdo e estende-lhe uma gorjeta. Seguimos caminho de jipe meio lavado e com espuma a escorrer pelas rodas. Regressamos à cidade conversando sobre animais selvagens, depois de termos passado por uma cobra estendida no meio da estrada. Aqui há pitão, cascavel, formiga vermelha, aranha venenosa… e até crocodilos amestrados, algures em Paga, que servem de assento a turistas mais afoitos… depois de lhes oferecem um franguinho para o almoço, claro!  
Vistas do lado BosonTwi, Kumasi
Em Kumasi, visitamos o Palácio Real (Manhyia), onde a família real expõe toda a sua riqueza dourada. O banquinho de ouro é a peça central, diz-se que esta peça de ouro maciço caiu do céu directamente para o colo do primeiro rei de Ashanti, e desde então marca o início da vida dos soberanos, como um trono em ponto pequeno. O rei actual, Otumfuo Osei Tutu, governa ao lado da sua mãe, foi ela quem lhe deu a herança. Aqui, neste reino e região, a sociedade é matriarcal e é a linhagem da mãe que dita a passagem do legado. É a mulher que transmite o sangue nas várias gerações, assim como o espólio da família. A constituição ganesa diz que, em caso de morte da mulher, se ela possuía herança de família, passa para os familiares da mulher, mas se era rendimento do casal, então é para o marido e filhos que fica.
A visita ao palácio fica marcada pela investida interessante do guia. A certo ponto pergunta-me “Sabe como conseguir manter um marido? Dando-lhe uma mulher nova a cada 40 dias”. A minha mente desconfiada fez logo as contas à quantidade de mulheres a que os polígamos de Ashanti têm direito. Mas o guia, na sua seriedade engraçada, esclareceu que era a esposa – única e irrepetível - que se devia renovar a cada 40 dias para manter o interesse do homem. Vendo bem as coisas, se tiver que cortar o cabelo ou mudar de estilo de roupa a cada 40 dias, não sei qual é a versão que prefiro.

A última paragem da visita é para um almoço tardio, como é costume por aqui. Peço Fufu, uma massa batida feita de banana-pão (plantain) e mandioca (cassava). Imito Khamel e aventuro-me com as mãos, retirando pedaços de fufu que enrolo com os dedos e molho no estufado de vaca que o acompanha. Dá-me uma certa satisfação deixar os talheres de lado, como se tocar directamente na comida me ligasse à terra onde ela foi produzida. Khamel sorri, aprova a minha tentativa de me integrar, malgrado a cor da minha pele. “Oboni” (branco) sou e aqui sempre serei, neste país tropical colorido e fértil.

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