Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Haja paciência!

Kumasi, 11 de Janeiro de 2013

Se queremos testar a nossa paciência, vamos a África.
Os modos educados dos africanos vêm acompanhados de uma desesperante lentidão de serviço e de uma irritante calma no discurso. São 11h00, estou no aeroporto de Kumasi desde as 7h30 da manhã e o voo marcado para as 9h10 está atrasadíssimo. Eram 10h15 quando anunciaram um atraso de mais 2 horas, devido a um nevoeiro cerrado e pouca visibilidade; a mim parece-me um daqueles dias de praia no verão, que amanhece com os pingos do nevoeiro a cair e que depois se torna um daqueles dias solarengos de 35º. Para quem já voou com neve e tempestade, um nevoeiro não parece coisa muito ruim.
Quando me dirijo ao balcão de informações quase a perder a paciência, o senhor de camisa branca, com ar preocupado e telemóvel na mão, diz-me calmamente: “2 hours are just around the corner, don’t go anywhere”. E acrescenta “you know, life is the most important thing, it is too dangerous to land”. Contra factos assim não há argumentos.
Regresso à sala de espera do aeroporto, pronta para um pequeno-almoço tardio e, claro está, demorado, onde partilho a mesa com estranhos que comem arroz e peixe frito às 11h da manhã. Vejo pela primeira vez uma mulher de batina, daquelas que os padres usavam antigamente, longas e pretas, com parte do colarinho branco bem apertado ao pescoço à vista. Entretanto chega Priscilla, uma jovem de origem ganesa nascida na Alemanha, de traços suaves e pele luminosa, cabelo longo entrançado e vestido cor-de-rosa escuro, que se senta educadamente na minha mesa. Metemos conversa. Diz-me que veio visitar os avós e um tio, depois de 10 anos de ausência. Os voos são muito caros para vir com frequência. Lá em Hamburgo onde mora, tem uma amiga portuguesa, de Alverca. Falo-lhe da minha experiência no Gana, que é terceira vez que cá venho e que gosto muito do país e da amabilidade das pessoas. Conto-lhe a história dos 5 filhos do agricultor que me parecia nunca terem visto antes uma “senhora branca” e repetiam continuamente “Obroni, obroni”, enquanto me fixavam de sorriso tímido e olhos curiosos. Priscilla conta-me que teve a mesma experiência, ao contrário: quando esteve na Polónia, a família com quem ela ficou nunca tinha visto uma pessoa preta e queriam tocar-lhe nos braços, como se precisassem de confirmar que ela era real.
São 12h30. Através de um microfone rouco anunciam finalmente a chegada do avião que, espero, me levará em segurança para Acra. Foi uma manhã longa e tive que usar várias doses da minha paciência que naturalmente, talvez pelo signo irrequieto que me rege ou pela genética, não é muita. Mas vou aprendendo a largá-la aos bocadinhos e a manter a dose necessária de reserva para situações onde já sei que a pressa me impedirá de obter o que preciso. Haja paciência, bom humor e simpatia e qualquer situação aborrecida em África se poderá tornar numa experiência digna de registo. Como esta.

1 comentário:

  1. Pelo menos vais ficando treinada com a paciência :)
    Mas o tipo do balcão tem razão: para quê arriscar a andar de avião se as condições não são as ideais?

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