Uma direcção. As horas a passar. O nascer-do-sol. Uma árvore frondosa. Um sorriso espontâneo. Uma janela aberta para ver o mundo girar.
Não só ver. Participar. Contribuir. Girar com ele. Porque o mundo não pára e a vida também não.

A direction. The sunrise over the ocean. A leafy tree. A spontaneous smile. An open window to see the world turning. Not just see.
To participate. To contribute. To turn in the same direction. Because the world keeps turning and so does life.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

“Teach at the beach”

Chegou como turista. Depois foi ficando como expatriado. Apaixonou-se por aquela praia ganesa na costa do Atlântico e lá se instalou. Montou uma escola de surf, onde recebia miúdos pobres na sala de aula feita de areia e de maresia. Uma noite, resolveu pagar um jantar aos seus alunos e levou-os a um restaurante. Sentados à mesa, com os seus sorrisos rasgados, o empregado perguntou-lhes o que queriam comer. Cabisbaixos, com ar de vergonha e dúvida, nenhum miúdo abriu a boca. O expatriado insistiu: “Podem escolher o que quiserem”. No olhar deles havia agora espanto e curiosidade. O mais corajoso pediu então um prato. Todos os outros – ao todo 12 – pediram a mesma coisa. Naquele momento o expatriado percebeu o que se passava: eles nunca tinham ouvido a pergunta: “o que queres comer?” ou lhes tinha sido pedido que dissessem uma coisa tão simples como “o prato que mais gostas”.

Não é só comida e roupa que falta a estas crianças; estes miúdos não têm escolha, alternativa, possibilidades. Não se recusa nenhum tipo de comida quando esta é escassa e engolem tudo o que lhes dão sem questionar. Dar opinião? O que é isso? Podemos ser nós a escolher o que queremos? Podemos ser outra coisa que não o que nos calha ao acaso? Podemos deixar de ser vendedores na estrada e fazer algo menos arriscado, menos cansativo e que nos encha o coração? Sonho? Isso existe?

"Obroni!"
Esta história verídica contada pela minha colega inglesa preenchia-me a mente e seguia-me juntamente com as crianças da comunidade onde fizemos o trabalho de campo. Quando a “Obroni” (mulher branca) passava, as crianças até então entretidas nos seus jogos ou afazeres domésticos paravam a sua actividade, acenavam energicamente e ofereciam um sorriso de orelha-a-orelha. Eu respondia com um “Hello” comovido. Elas continuavam a sorrir e começavam a seguir-me, enquanto eu dizia “How are you?”. Percebi que a máquina fotográfica que trazia a tiracolo era alvo de olhares e perguntei-lhes se queriam uma foto. Imediatamente se puseram em pose e em segundos dezenas de crianças se meteram à minha frente de sorriso aberto à espera do clique mágico. Tirei dezenas de fotos a estas crianças, que reagiam entusiasticamente quando lhes mostrava o resultado colorido e procuravam o seu reflexo no ecrã minúsculo da minha Canon. Apetecia-me saber mais sobre estas criaturas doces e perguntava-lhes o nome; muitas delas eram muito pequenas e as outras mal falavam inglês, mas as que conseguiam perceber “What is your name’” traduziam para as restantes e debitavam os nomes meio ingleses - meio nativos com uma pronúncia fechada e suave. Quando lhes disse o meu nome repetiram em coro “Sandrrrrrraaaaaa”, como se tivessem acabado de aprender uma palavra nova para o seu vocabulário.






 
No dia seguinte, quando chegámos à comunidade, algumas das crianças lembravam-se de nós e vieram ter connosco, calcando o pó do chão cru e do harmattan que assola a região nesta altura (correntes de vento originárias do deserto do Sara transportando partículas de areia e de pó que tornam a atmosfera opaca e diminuem a temperatura do ar). Em troca de abundantes sorrisos, distribuí o chocolate que trazia por elas, numa azáfama divertida em frente a uma barraca de madeira onde se entrançavam cabelos como arte. Aqui, nesta comunidade pobre onde as condições de vida e os acessos são difíceis, moram criaturas cheias de vida e de alegria, apesar das circunstâncias e da falta de escolhas.

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